Larguei tudo. Mas voltei.

[CENA INTERNA. Sala em penumbra, cadeiras dispostas em circulo para o início de uma sessão de um grupo de auto-ajuda]

Oi,

Prazer.

Me chamo Deborah.. e… eu hoje estou aqui pra dividir com vocês… uma vitória. (Expressão emotiva). 

Eu consegui, depois de quase 10 anos, consegui não odiar tudo que escrevo!

(Aplausos de incentivos) 

É! Foram muitos arquivos deletados, cadernos queimados, um livro quase pronto, editado, só aguardando para imprimir mas que mandei parar antes… foi tanta letra pelo ralo que… sei lá… nem sei como estou aqui hoje… (choro contido)

Mas eu consegui e é isso que quero dizer a todos vocês desse grupo que odeiam seus próprios textos: é possível superar! Vamos em frente! 

UHAAAAA!!!

[SHUT OFF. TELA PRETA. NENHUM SOM]

[Narradora (eu) disposta em plano americano com fundo preto]

Essa cena não aconteceu. Eu nunca participei de um grupo de auto-ajuda, e esse especificamente jamais existiria no mundo, até porque não acho que tanta gente assim sofre dessa mazela. Mas existiu dentro de mim. E como gosto muito de roteiros, achei esta a forma mais eficiente de contar sobre minha ausência por tanto tempo neste site. 

Durante os últimos 4 ou 5 anos (talvez mais), centenas de textos de acumularam no meu bloco de notas mas nenhum se tornou público. Passava então por conflitos intensos -internos e externos- que me congelavam diante da possibilidade de minhas palavras poderem ser usadas contra mim. 

“Mas como assim ‘contra’ você, Deborah?” Explicando da forma breve: demorei para entender a fronteira entre eu e o papel. Muitas vezes me colocava nua, crua, vísceras expostas, peito aberto, alma em peso, tudo num texto. Isso vira uma arma para quem não sabe ‘ler’-no sentido mais profundo da palavra. Ter o mapa do seu tudo, assim, de graça?

Alguns passos antes disso: Escrevia em diários desde muito cedo. Trancava-os, era moda. Um dia, quando me julguei adulta o bastante, lá pelos meus 16 anos, peguei aquela pilha de caderninhos com cadeados e ateei fogo. Achava ridículo tudo aquilo, aquela infância boba… Pagaria uma fortuna para tê-los de volta.

Escrever nada mais é do que fazer esculturas de quem somos hoje para, lá na frente, ver como o tempo nos moldou.

Segui escrevendo, virei mais adulta ainda muitas vezes, e em todas elas “matei” a obra de minha antecessora. Esse ultimo -e longo- bloqueio criativo me tirou uns 3 anos de produção por inúmeras razões e virarão temas de crônicas em breve aqui. Desta vez, pelo menos, não apaguei tudo. Então resgatarei pérolas guardadas aos poucos.

A decisão de reativar meu espaço de textos se deu depois de uma conversa determinante com meu avô, há uns 15 dias. Ele, a pessoa de que mais amo e escuto nessa vida me disse: “é criminoso que você não esteja escrevendo. Quem nasce com um dom precisa usá-lo. Caso contrário é desrespeitoso contra o Criador, que te fez assim”.

Sobre ter o dom ou não, não vem a caso discutir, até porque não discuto o que meu avô decide. Fato é que apaguei os textos antigos para que tivesse um marco inicial de um momento absolutamente atípico e bom que vivo desde que aceitei outra ordem tão poderosa quanto a do meu avô: SOMOS RIDÍCULOS. Queiramos ou não. Todos somos. No amor, no trabalho, nas amizades, na vida: ridículos bichos que julgamos infinitos e que sabem fazer coisas e invenções bonitas, feito macacos muito sabidos. Mas ainda assim, somos ridículos lutando contra obviedades, nos encantando com doces que são gostosos, acumulando informações inúteis sobre política e economia, temendo que os outros nos percebam ridículos… A vida ficou mais leve. Podemos andar plantando bananeiras. É irrelevante sobre quem somos. Além de finitos, encantados com o belo, temerosos à solidão, somos seres afáveis, carinhosos, que sabem amar muito, não sobra muito mais sobre o que nos compõe.

Estou no Rio de Janeiro postando o novo primeiro texto do ‘um dia largo tudo”. Apaguei os demais apenas para marcar o recomeço do espaço que me aguentou com tanta firmeza e polêmicas boas. Mas eles aos poucos voltarão.  

Cada coisa em seu tempo.

[cai o fundo preto. Estamos num jardim lindo] 

Então as portas estão abertas. Espero decepciona-los de vez em quando porque adoro uma boa retórica, com réplicas e tréplicas até que não haja mais nada a ser dito. 

(Será que eu não deveria ter feito outra faculdade?)

Sejam bem-vindos.

Com amor,

D.

2 comentários

    1. Engraçado como algo tão simplório como letras, que podemos apagar, realocar, editar como for, conseguem nos paralisar… fico feliz de estar de volta! Obrigada pela mensagem 🙂

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