A borda do mar

Em tempos bíblicos, dizem, Moisés foi designado por Deus para liderar a saída dos judeus do Egito, rumo a Canaã para acabar com a escravidão do povo e seguir para a terra prometida. Para tal, precisariam atravessar o Mar Vermelho.

Assim o fez.

Mas então os faraós (quem ama Salvador grita… “êêê FARAÓ!!” Desculpem, estou dispersa) viram que perder mão de obra escrava era péssimo negócio -retórica camuflada de novos mil argumentos, mas que sustentam o mesmo interesse: uma nação construída a base da vida dos que foram estipuladas como desalmadas ou desimportantes.

Bom… O mar já estava aberto, povo judeu todo passando, mas se fechou para os faraós, tudo bem parecido com um sonho non-sense, (e sempre perco o foco nessa parte da história, porque imagina dois paredões de água e aquele corredor de areia e você andando, vendo os bichos todos?) e o resto se você quiser saber, leia a Bíblia ou a Torá. Está na parte da entrega das tábuas dos dez mandamentos e dos 40 anos de peregrinação.

Mas por falar em 40 anos, estamos nesse caos de quarentena ha mais de 90 dias que emocionalmente se equivalem a 40 anos sem rumo.

Prometi a mim mesma não falar disso, mas hoje, enquanto nadava no mar, que não é o Vermelho, mas sim azul, em São Conrado, meus pensamentos construíram essa história que resolvi escrever.

O mar não esteve fechado em momento algum. Tampouco estava aberto para qualquer passagem de povo escolhido.

O mar estava “interditado” pelo -pífio- poder público da cidade, enquanto o Covid se espalha livre, leve, e solto por barracos hiperpopulados, festas de blogueiras fitness e transportes públicos insuficientes.

Como boa cidadã, esperei. Cumpri com rigorosidade quase extrema o pedido para ficar em casa, mesmo tendo sido infectada e adquirido anticorpos ainda no mês de março. Fora isso, usei máscara, me desinfectava até que minha pele parecesse pele de golfinho, usei meu proprio carro, mas tive que ir ao mercado, tive que ir aos correios, e tudo bem também. Ando como uma incendiária, com vidros de álcool.

Ontem disseram no jornal -e minha seletividade absoluta de ouvir o que se fala no jornal captou- que o mar estaria aberto para atividades esportivas individuais. Isso significa poder voltar a nadar!

Caramba!

Foi melhor que presente de aniversário, melhor de delivery que chega na hora! Foi mágico! Arrumei minhas coisas, fone de ouvido, touca, maiô, e lá fui.

Moisés me aparecia em pensamentos (não tomei/nem tomo nenhum entorpecente, só estava pensativa) inúmeras vezes: ele abriu o mar para meus antepassados seguirem. Se isso é fisicamente possível, eu não sei. Desconfio. Mas está escrito, e aí eu ia começar uma briga geracional na minha família então estamos combinados que SIM. ISTO É FISICAMENTE POSSÍVEL.

Mas a ideia de cruzar mares, seja da forma que for, dialoga com questões intimas, de desafios pessoais e sociais que estabelecemos ao longo da vida. A do meu avô foi a regata Buenos Aires – Rio, a do meu tio Gabriel é cobrir de imagens lindas a vastidão do mar. Tem os velejadores, surfistas, canoerios… me dei conta então que somos atravessadores de oceanos.

E muito antes de nós, navios negreiros, migrantes, carregados de insumos e especiarias, Convertedores de índios. Expedições de roubo não só dos tangíveis, mas também de anulação de fés, de massacres.

Um mar.

Sempre os abismos são mar. Não dá pra olhar pra trás e refazer o passo na direção contraria. Assim como a vida, uma pequena mudança muda todo o caminho.

Correr numa estrada te permite parar no meio e pedir uma carona. Andar de bicicleta, idem. Cruzar distâncias à bordo de aviões acontece independente de sua força e fé. Mas nadar? Atravessar o impossível, o infinito? Cargas, comportas, containers (matéria do sexto ano: o canal do Panamá)?

A tarefa é simples talvez por ter-me sido imposta desde muito pequena.

Encher seus pulmões ao máximo e esvazia-los repetidas vezes enquanto braços e pernas se mexem em sincronia. Não engula águas solte o ar com a cara ainda mirando o fundo. Crie um côncavo em seu pulmão que agarrará todo o ar do mundo na hora em que virar o rosto. Não permitir que o medo da escuridão e do desconhecido te paralize. Não erre o ritmo entre pernadas e braçadas.

Ir avante.

Saber qual ponto mirar.

Definir horizontes.

Recalcular horizontes de acordo com a mudança da correnteza.

Chegar num ponto que só faz sentido pra você, para então voltar.

Ou encostar na pedra.

Subir nela. No Vidigal. Lugar preferido.

Saber que, por mais que queira, o mar não tem borda.

O mar não tem borda.

Não aglomera.

Só entra pulmão limpo, rapaz.

É como uma highway, que já foi usado pra lá, pra cá e pra todos os cantos desse mundo NÃO PLANO em que vivemos.

E por isso não fazia sentido estar interditado.

Sem contar que pelas águas salgadas da cidade que amo, se esvaem tensões, pensamentos negativos, o peso que a vida em terra firme têm imposto.

Cheguei na areia. Precisava escrever que pensei nas aulas de religião, coisa que há muito não me ocorria. E que em toda conversa que o Rabino Gabriel dizia sobre a abertura do mar, virava os olhos.

16 anos depois, entendi que o mar é a mais bela metáfora para testar povos a manter suas unidades.

E que travessias não faltarão nunca.

Muitas que precisam ser interceptadas. Outras tantas, impulsionadas.

Meu nado bobo de dois mil metros parece banal. Mas não foi.

Porque hoje o mar se abriu.

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